Dois anos atrás, passei na seleção para docente do SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). A oportunidade para ocupar de fato o cargo veio em Abril de 2010, por causa do “boom” das instalações de novas indústrias no pólo industrial de SUAPE. O SENAI necessitava de professores qualificados para a formação de novos profissionais nas diversas áreas técnicas.
Passei por treinamentos, conheci a empresa, fiz até curso de oratória para aprender algumas técnicas de como falar melhor em público. Diferentemente dos depoimentos ouvidos por mim de professores da rede pública e também da rede privada, que relatam que não recebem treinamento devido. “Somos jogados na jaula dos Leões sem saber como se doma um”. Talvez seja uma deficiência das universidades nos cursos de licenciatura ou quem sabe, os estudantes não valorizam as técnicas e estudos passados no período universitário e ficam parecendo um peixe fora d’água.
Fui ser professor do SENAI Cabo que possui como foco SUAPE. Minha área de atuação é a eletricidade. Vi que ser professor realmente não é uma tarefa fácil. Lidar com pessoas dos mais diversos gêneros é que é difícil. Tive problemas com alguns alunos. É impossível agradar a todos, mas é possível agradar e despertar uma grande maioria.
Tive problemas com uma turma que eu achava que eles não tinham interesse em estudar e, que o único objetivo deles naquele curso era conseguir o certificado e não o conhecimento. Isso gera desmotivação em preparar aulas melhores, pesquisar, trazer coisas novas, acabamos achando ser trabalho em vão. Na verdade eles não conheciam o valor maior do conhecimento, não tiveram a mesma oportunidade que eu e muitos outros. Um dia houve uma reunião com os professores e coordenadores pedagógicos onde foram discutidos assuntos sobre práticas pedagógicas e o incentivo a pesquisa no âmbito educacional. Minha postura era achar que aquilo tudo era uma perda de tempo quando falamos alunos que não querem melhorar, triste de mim que ainda não sabia o que era ser professor.
Após as discussões, foi passado um vídeo muito interessante sobre o SENAI Cabo, sua trajetória com algumas fotos de alunos, professores e funcionários, pessoas que fizeram parte da história. No fim nada fazia sentido com o que foi discutido na reunião. Depois do vídeo, uma das coordenadoras contou a história de um aluno que estava dando muitos problemas ao SENAI. Tentaram várias formas para reverter à situação. Até os pais do garoto foram chamados e a resposta que tiveram da mãe do mesmo foi: O que eu posso fazer? Ele não escuta ninguém...
Esse menino era tão difícil que filmou e colocou um vídeo na internet com brincadeiras absurdas com seus colegas de turma e de outras turmas. O nome do vídeo era: “O SENAI é massa”. Imediatamente os Professores e coordenadores se reuniram para discutir uma solução para o problema. A maioria era a favor da expulsão, outra parte era a favor da suspensão do aluno ou de penas mais severas. Os professores que davam aula na sala daquele aluno não acreditavam na recuperação do aluno e afirmavam que não dariam mais aula caso o mesmo estivesse em sala. Foi ai que um dos professores presentes teve uma idéia e compartilhou: “Por que nós não damos uma pena para ele parecida com o que ele fez de errado? Minha proposta é dar mais uma chance. Sua pena por ter colocado o vídeo será fazer um novo vídeo sobre o SENAI, só que contendo o verdadeiro dia-dia do SENAI desde o primeiro dia e não o dia-dia que ele gostaria que fosse. Esse vídeo será apresentado no auditório para todos os estudantes”.
O resultado foi um vídeo interessantíssimo. O aluno foi aplaudido por seus colegas e por professores. Para se ter uma idéia, o SENAI usa o vídeo para divulgar seu trabalho nas escolas públicas e privadas. Outra coisa interessante, que na verdade é a idéia chave desse trabalho, foi que desde o dia do auditório esse aluno nunca mais foi o mesmo. Começou a ser pontual nas aulas, deixou as brincadeiras de lado, recuperou todas as notas, acabou o curso e o melhor, hoje os coordenadores contam que ele está trabalhando e é um excelente profissional.
Depois desse depoimento relatado na reunião eu nunca mais fui o mesmo. Percebi que o mais bonito em nosso trabalho e, o maior desafio, é conseguir entrar no universo único de cada aluno. Se agente conseguir a chave desse universo os resultados são insuperáveis. O problema é que não existe um chaveiro para fazer esse tipo de chave. Nós é que o somos. Nosso trabalho é direcionar esses alunos na aplicação dos estudos em suas vidas e para isso precisamos conquistar a confiança deles. Gosto muito de uma frase de Richard Bach: “Aprender é descobrir aquilo que você já sabe. Ensinar é lembrar aos outros que eles sabem tanto quanto você”. Muitos professores não aprenderam e não sabem como aplicar seus conhecimentos em sua própria vida. Então como eles podem ensinar? Mas isso eu deixo para outras discussões.
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